quinta-feira, novembro 29, 2007

FUGA! Estréia dia 07-12

FUGA!
(líquidos corpos)

Sobre o espetáculo...(Sinopse).


Memórias, evocações e projeções dos performadores - em relação - visam trazer o público para dentro da cena, e, em alguns momentos, os performadores para fora dela. A partir de situações de espelhamento, provocações e compartilhamento de sensações, o espetáculo pretende criar um ambiente físico sensível, abrindo-se para diferentes leituras, numa proposta que constrói sua própria lógica.
Neste aquário imaginário - um recorte de espaço/tempo - abrem-se temas que surgiram do próprio processo, como: pontos de vista, opiniões, relações líquidas, medo e tempo. Encontramos provocações no livro “Amor Líquido – sobre a fragilidade dos laços humanos” de Zygmunt Bauman, e em algumas imagens da fotógrafa americana Diane Arbus, que serviram para criação e discussão durante o processo de criação.
“Por favor, não desliguem os celulares, mantenham algum tipo de contato com a realidade lá de fora...”.

Sobre o processo...
As fronteiras entre a dança e o teatro têm sido um dos focos fomentadores das pesquisas contemporâneas em Artes Cênicas. O Núcleo Fuga! está experimentando na prática a potencialidade criativa que a união entre atores e bailarinos traz. Além dos performadores possuírem formação nas duas linguagens, foram utilizados especificamente alguns procedimentos do Lume-teatro e a técnica Klauss Vianna de dança, por possuírem concepções de trabalho que se relacionam.
Para tanto Renato Ferracini e Jussara Miller propuseram, separadamente, encontros nos quais foram exercitadas questões essenciais a esses trabalhos, criando um vocabulário pré-expressivo para o coletivo estruturar sua criação. A escolha por trabalhar essas informações em separado foi tomada para que a contaminação entre os dois trabalhos se desse no plano do corpo e este as organizasse, e não dada a partir de possíveis conceituações anteriores às vivências. João Ricardo acompanhava os performadores nesse processo, gerando novas possibilidades de visão dos materiais, relacionando o trabalho de Renato e Jussara com a construção/criação da direção. Ao mergulhar nesse caldo criativo, o diretor Norberto Presta desenvolveu, como um tecedor, os materiais do grupo em direção a uma dramaturgia cênica própria.
Se nos apoiarmos nas linguagens da dança e do teatro, e principalmente em sutilezas de criações do corpo, o que se constrói em cena? Em busca dessa resposta ou do aprofundamento da questão foram estruturados os processos de ensaio, colocando sobre o mesmo tablado estas orientações diferentes de linguagem, mas que, em níveis mais profundos, se conectam e geram outros campos de poesia em cena.
Colocando o performador em relação direta com o espectador, verificamos a delicada borda líquida que separa arte e vida, espectador e performador: ambos são seres em criação conectados por um mundo de virtualidades geradas pelos corpos.
O que: Estréia FUGA!
Onde: No espaço do LUME-TEATRO
R. Carlos Diniz Leitão 150, Barão Geraldo, Campinas - SP
Quando: de 07 a 11 de dezembro de 2007
sempre às 20:30

segunda-feira, novembro 26, 2007

im the man in the box


foto by dessa
zazous.blogspot.com

ficaria feliz se fosse apenas isso


esse menino não pode sonhar. suas pálpebras foram queimadas num sol sem fim de meio dia. impressionante, atravessando a ponte com os pés e a alma descalços.
um menino intoxicado pela luz ofuscado pelo álcool grosso dos butecos, babando palavras contraditórias.
prenhe de uma dor surda, abandonado até a medula.
natimorto em pleno dia:
"eu sou filho do alemão. eu sou filho de índio. eu vou matar josé"
o sangue preto nos joelhos farelento nos cantos da boca recordavam uma fúria ainda viva.
gostaria que você visse os olhos desse menino. perdoe-me, eu não gostaria que você o visse. mas você deveria tê-lo visto.
ele poderia estar morrendo de coma alcoólico, não sei. estava em coma de pé, ao meio dia, locomovendo-se nú, desmoronando-se, pele e ossos e furor de um corpo de homem rasgando entranhas de criança.
homem que urra pressentido através da pele ainda fresca.
imagine você: esse menino, desesseis ou quatorze anos: sem regras. sem pais e sem país. sem comunidade ou descendência. sem nome pois sem língua. sem roupas. só aqueles cabelos brilhosos e pretos e pêlos, no buço, axilas, sexo.
todos caçoaram dele pois seus traços são diferentes sua pele é mais clara. mas o cabelo é de índio. e os lábios grossos também.
sem passado. sem sonhos pois sem pálpebras.
a beleza agressiva do menino caído.
imagine você esse menino.
ele não pode mais sonhar pois suas pálpebras foram queimadas pelo sol do meio dia. mas seu corpo teima em pulsar como essas florzinhas vagabundas que nascem
entre as pedras e esfregam na cara do mundo a coragem efêmera e irracional e estarrecedora da vida em si.
esse garoto é muito bonito e deve ser agora osso.
eu o vi atravessando a ponte ao meio dia.
eu não o vi. mas pressenti o calor da sua chama em páginas esquecidas, um fragmento de história jogado no lixo.
ficaria feliz se fosse apenas isso.

sábado, novembro 10, 2007