quarta-feira, fevereiro 20, 2008

FUGA! No SESC Paulista


http://www.lumeteatro.com.br/fuga

PRIMEIRO SINAL

Fuga!

SESC Avenida Paulistapg1_transp

21/02 a 10/04.

Quinta, às 20h.

Com o Núcleo Fuga! (Campinas) formado por Ana Clara Amaral, Carolina Laranjeira, Eduardo Albergaria e Evelyn Ligocki. Direção: Norberto Presta. Assistência de Direção e vídeos: João de Ricardo Provocação Cênica: Jussara Miller e Renato Ferracini. Memórias, evocações e projeções dos performadores criam um espetáculo entre o teatro, a dança e a performance. Partindo de situações de espelhamento, provocações e compartilhamento de sensações, o espetáculo cria um ambiente físico/sensível, que possibilita diferentes leituras, em uma proposta que constrói sua lógica própria, trazendo o público para dentro da cena e, em alguns momentos, os performadores para fora dela. Configurado como um laboratório de experimentação dentro do espaço Lume, o Núcleo Fuga! busca, em seu primeiro trabalho, experimentar a potencialidade criativa que a união entre atores e bailarinos traz, a partir de procedimentos do Lume-teatro e da técnica Klauss Vianna de dança. No espaço Teatro de Câmara (duração: 50 minutos - recomendado para maiores de 14 anos)

R$ 8,00
[inteira]

R$ 4,00
[usuário matriculado no SESC e dependentes, +60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino]

R$ 2,00
[trabalhador no comércio e serviços matriculado no SESC e dependentes]

terça-feira, fevereiro 05, 2008

O Golem


Tentado em repetir o ato divino, um rabino alquimista preparou com cuidado e detalhamento o corpo de um pequeno ser de terra e água. De forma humana, ele permanecia imóvel, até que o rabino, ao lembrar do primeiro sopro, escreveu com a ponta de uma vareta a palavra "vida" na testa do boneco, que de imediato abriu os olhos.
O Golem servia ao seu amo sem discutir, refletir ou falar. Era surdo e mudo, mas através dos seus olhos se podia ver o marrom animado da lama viva. Ao fim do dia, após ter feito todas as tarefas pesadas, o golen acocorava-se num canto escuro da cozinha, de olhos abertos e respiração ofegante, num silêncio perturbador, esperando novo dia e novas ordens a cumprir.
A rotina continou até que o rabino percebeu que sua criação aumentava de tamanho a cada noite, em uma semana, de um bonequinho de barro que de pé não passava do tamanho de uma mesa, tinha crescido a ponto de não caber dentro do laboratório. Sem saber o que fazer o rabino deixou que ele crescesse até ficar enorme, e logo o golem não mais era de serventia para ele, bem pelo contrário, seu tamanho e sua força descomunal pnham a vida do rabino e a ordem dos seus experimentos em perigo.
Foi num sonho que o rabino deu-se conta que deveria apagar a palavra da testa do seu criado. Mas como alcançar sua cabeça monstruosa? Ordenou firme para que o golem ajoelhasse para lhe amarrar os sapatos e ele assim o fêz. Rapidamente com uma varinha ele riscou a palavra vida e escreveu morte na testa do gigante. Imediatamente, o ser abriu a bocarra num esgar e olhou firme pela primeira vez dentro dos olhos do rabino, desmoronando logo depois num tremor abafado, matando o velhote que quisera brincar de deus, soterrado embaixo de uma lama ainda quente.

ps: foto e escultura by myself, em imbituba-sc, janeiro 2008

quinta-feira, janeiro 31, 2008

i cannot forget it


"No Satiricon de Petrônio, um esqueleto de prata com articulações móveis faz a sua aparição num banquete..., essa visão estimulava os convivas a usufruirem mais intensamente esses efêmeros instantes de prazer"

citação do "dicionário de símbolos" de Jean Chevalier, tópico, esqueleto.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Neruda - Brazilian Girls - FUGA!

Me gustas cuando callas porque estás como ausente,
y me oyes desde lejos y mi voz no te toca.
Parece que los ojos se te hubieran volado
y parece que un beso te cerrara la boca.

Como todas las cosas están llenas de mi alma
emerges de las cosas llenas del alma mía.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
y te pareces a la palabra melancolía.

Me gustas cuando callas y estás como distante.
Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
déjame que me calle con el silencio tuyo.

Déjame que te hable también con tu silencio
claro como una lámpara, simple como un anillo.
Eres como la noche, callada y constelada.
Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.

Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto.

(Pablo Neruda - viente poemas de amor y una canción desesperada)]

Esse poema foi belamente musicado pelos descolados da BRAZILIAN GIRLS, banda novaiorquina que anda tocando direto no meu winamp e que virou trilha da saída dos espectadores no FUGA!
Aliás, a mini-temporada de estréia foi bacaníssima trazendo a galera para o Espaço do LUME-TEATRO em massa. A peça dividiu opiniões, todas acaloradas e tivemos a possibilidade de ir tarsformando o espetáculo na experiencia direta com o público. Está ai a raiz performática do FUGA!, comunicação sempre líquida e direta com os espectadores, atendo a entropia e a diferença.
Ae vai uma videoarte meio toca que encontrei no youtube que um cara fez em cima da música dos Brazilian. São camadas e mais camadas de referencia. Intertextualidade pura e o afeto do silencio alheio.


domingo, dezembro 02, 2007

Hijikata com insolação



Um pouco de dor de cabeça, peguei muito sol hoje, o sol do meio dia no lombo, cozinhando as idéias que ainda estão muito perto do couro cabeludo. Estou lendo "Butoh, veredas dálma", livro de Maura Biochi sobre Butoh, obviamente. Escrevo isso depois de um ensaio aberto do FUGA! um xis burguer e convivência VERY humana. É interessante ver que realmente tanto a arte como a vida dependem dos mesmos mecanismos, e que é certo que o olhar edita. tanto o olhar particular quanto o olhar do outro são a chave e o centro da maravilha e do hardcorismo que é ser humano. Perceber e agregar a diferença é um assunto perpétuo uma dessas grandes questões colossais do pensamento humano. Até onde chegar com isso? Até onde a opinião do público, ou melhor dizendo, do outro, é válida como um estímulo a fomentar novas questões e ações ou até onde ela é apenas o rumor de uma insatisfação egóica que não vê a obra em si, mas apenas como "eu gostaria que ela fosse". Existem diferenças entre dialogar e servir a sua subjetividade como num buffet. O olho se alimenta e, no final das contas, percebe o gosto que quer. Somos reféns do olhar. Ao perceber isso, reféns e terroristas.
No livro, existe um capítulo chamado "o último discurso de Tatsumi Hijikata", discuro esse de um dos polos fundadores da idéia e da prática do Butoh juntamente com Kazuo Ohno. Digo polaridade pois se o paradoxo está na base do Butoh, as práticas e entendimentos de Hijikata e Ohno se contradizem e se completam. Coexistência do paradoxo.

No discurso proferido em razão de um festival de Butoh em 1985, ano da sua morte, Hijikata reflete sobre a razão da sua dança, e os pricípios poéticos da sua arte. A morte e a sombra são os norteadores do trabalho do artista japonês. Num dos parágrafos ele discorre sobre a importância dos mortos no sua dança:

"Muitas vezes eu disse que uma irmã mais velha vive dentro do meu corpo. Quando tento levantar ela se abaixa. Quando me ocupo da minha dança ela come as trevas no meu corpo. Quando ela cai, isso significa muito mais do que eu ficar em pé. Muitas vezes ela fala para mim:"você é doido pela sua dança.Mas o que você está tentando exprimir só poderia expressar se não expressasse. Não é Kuninho?

Por causa disso ela se tornou minha professora. Sim, os mortos são meus professores. É preciso respeitar os mortos e gostar deles. Mais cedo ou mais tarde seremos chamados também. temos que trazer os mrotos para pertod e nós e conviver com eles. Hoje em dia as pessoas apreciam apenas a luz. Mas a quem a luz deve a sua prórpia existência? Às costas das trevas, pois elas carregam luz. Os pequenos brincalhões devoraram as trevas.Agora a noite não tem mais obscuridade, nem trevas. No passado as trevas eram claríssimas."

O que dizer após isso? Quem são esses mortos ou o que são? Quem são os mortos que animam a a arte que tento fazer? que arte é essa? A luz vive da treva e vice-versa, quem nutre minha luz? E a sua?
Apenas transcreví esse trecho para compartilhar e continuar o spam mental, ou a escultura de pensamento desse grande artista. só o eco da sua arte já mexe profundamente. Prova irrefutável de que Hijikata estava correto em relação aos seus e nossos mortos e sobre uma das infidáveis e paradoxais possibilidades da arte: a mastigação da treva. Seja isso visível ou invisível para você.

quinta-feira, novembro 29, 2007

FUGA! Estréia dia 07-12

FUGA!
(líquidos corpos)

Sobre o espetáculo...(Sinopse).


Memórias, evocações e projeções dos performadores - em relação - visam trazer o público para dentro da cena, e, em alguns momentos, os performadores para fora dela. A partir de situações de espelhamento, provocações e compartilhamento de sensações, o espetáculo pretende criar um ambiente físico sensível, abrindo-se para diferentes leituras, numa proposta que constrói sua própria lógica.
Neste aquário imaginário - um recorte de espaço/tempo - abrem-se temas que surgiram do próprio processo, como: pontos de vista, opiniões, relações líquidas, medo e tempo. Encontramos provocações no livro “Amor Líquido – sobre a fragilidade dos laços humanos” de Zygmunt Bauman, e em algumas imagens da fotógrafa americana Diane Arbus, que serviram para criação e discussão durante o processo de criação.
“Por favor, não desliguem os celulares, mantenham algum tipo de contato com a realidade lá de fora...”.

Sobre o processo...
As fronteiras entre a dança e o teatro têm sido um dos focos fomentadores das pesquisas contemporâneas em Artes Cênicas. O Núcleo Fuga! está experimentando na prática a potencialidade criativa que a união entre atores e bailarinos traz. Além dos performadores possuírem formação nas duas linguagens, foram utilizados especificamente alguns procedimentos do Lume-teatro e a técnica Klauss Vianna de dança, por possuírem concepções de trabalho que se relacionam.
Para tanto Renato Ferracini e Jussara Miller propuseram, separadamente, encontros nos quais foram exercitadas questões essenciais a esses trabalhos, criando um vocabulário pré-expressivo para o coletivo estruturar sua criação. A escolha por trabalhar essas informações em separado foi tomada para que a contaminação entre os dois trabalhos se desse no plano do corpo e este as organizasse, e não dada a partir de possíveis conceituações anteriores às vivências. João Ricardo acompanhava os performadores nesse processo, gerando novas possibilidades de visão dos materiais, relacionando o trabalho de Renato e Jussara com a construção/criação da direção. Ao mergulhar nesse caldo criativo, o diretor Norberto Presta desenvolveu, como um tecedor, os materiais do grupo em direção a uma dramaturgia cênica própria.
Se nos apoiarmos nas linguagens da dança e do teatro, e principalmente em sutilezas de criações do corpo, o que se constrói em cena? Em busca dessa resposta ou do aprofundamento da questão foram estruturados os processos de ensaio, colocando sobre o mesmo tablado estas orientações diferentes de linguagem, mas que, em níveis mais profundos, se conectam e geram outros campos de poesia em cena.
Colocando o performador em relação direta com o espectador, verificamos a delicada borda líquida que separa arte e vida, espectador e performador: ambos são seres em criação conectados por um mundo de virtualidades geradas pelos corpos.
O que: Estréia FUGA!
Onde: No espaço do LUME-TEATRO
R. Carlos Diniz Leitão 150, Barão Geraldo, Campinas - SP
Quando: de 07 a 11 de dezembro de 2007
sempre às 20:30

segunda-feira, novembro 26, 2007

im the man in the box


foto by dessa
zazous.blogspot.com

ficaria feliz se fosse apenas isso


esse menino não pode sonhar. suas pálpebras foram queimadas num sol sem fim de meio dia. impressionante, atravessando a ponte com os pés e a alma descalços.
um menino intoxicado pela luz ofuscado pelo álcool grosso dos butecos, babando palavras contraditórias.
prenhe de uma dor surda, abandonado até a medula.
natimorto em pleno dia:
"eu sou filho do alemão. eu sou filho de índio. eu vou matar josé"
o sangue preto nos joelhos farelento nos cantos da boca recordavam uma fúria ainda viva.
gostaria que você visse os olhos desse menino. perdoe-me, eu não gostaria que você o visse. mas você deveria tê-lo visto.
ele poderia estar morrendo de coma alcoólico, não sei. estava em coma de pé, ao meio dia, locomovendo-se nú, desmoronando-se, pele e ossos e furor de um corpo de homem rasgando entranhas de criança.
homem que urra pressentido através da pele ainda fresca.
imagine você: esse menino, desesseis ou quatorze anos: sem regras. sem pais e sem país. sem comunidade ou descendência. sem nome pois sem língua. sem roupas. só aqueles cabelos brilhosos e pretos e pêlos, no buço, axilas, sexo.
todos caçoaram dele pois seus traços são diferentes sua pele é mais clara. mas o cabelo é de índio. e os lábios grossos também.
sem passado. sem sonhos pois sem pálpebras.
a beleza agressiva do menino caído.
imagine você esse menino.
ele não pode mais sonhar pois suas pálpebras foram queimadas pelo sol do meio dia. mas seu corpo teima em pulsar como essas florzinhas vagabundas que nascem
entre as pedras e esfregam na cara do mundo a coragem efêmera e irracional e estarrecedora da vida em si.
esse garoto é muito bonito e deve ser agora osso.
eu o vi atravessando a ponte ao meio dia.
eu não o vi. mas pressenti o calor da sua chama em páginas esquecidas, um fragmento de história jogado no lixo.
ficaria feliz se fosse apenas isso.

sábado, novembro 10, 2007

terça-feira, outubro 16, 2007

Memória e imaginação (trinta ítens pra trinta anos delirantes)


1- meu corpo-menino menor ainda pois deitado na cama de casal, dos meus pais, na casa de praia, na beira do mar. Os adultos todos atarefados e eu preguiça pura, olhando fixo para uma bola de plástico: e se ela pudesse se mexer sem que eu a tocasse? e ela mexeu, rodou devagar sob seu próprio eixo e eu saí correndo.

2- Minha avó me contou que eu chorava a noite pois ouvia o canto das baleias. o som do vento uivando nas dunas que o muro da casa mal continha. a pequena floresta de pinheiros. fiz umas armadilhas ali, buracos com gravetos em cima, palha e a areia da praia. alguém poderia quebrar o pé. eu mesmo me joguei na armadilha. o terreno cedeu um pouco, pulei, os galhos quebraram e fui engolido.

3- Uma água viva entrou na minha sunga e me queimou a bunda. Minha avó tinha que ter contado pro filho do vizinho. ele ficou pelado na minha frente balançando o pinto. a velha avó dele olhou minha mão e disse, tens um “eme” escrito aqui, que é de morte mas de também de mãe. eu saí correndo. o filho do vizinho não tem vergonha eu tenho. eu perdi os meus carrinhos na praia. Fiquei olhando as nuvens e ouvindo o mar rezando pra que deus me trouxesse eles de volta. eu rezei e fiz promessas. descer uma escada gigantesca de joelhos em cada degrau rezando um pai nosso para que as minhas sementes que estavam nadando na piscina não engravidassem a tia gorda. incesto é um crime muito hediondo. De joelhos, um pai nosso por degrau.

3- De tardezinha, da janela da lavanderia, quando o céu ficava vermelho roxo eu via ali, parado no ar, flutuando de prata no céu, um disquinho voador, de ferro, perfeito, sombreado, uma imagem muito nítida, inclusive a cúpula de vidro. durante as madrugadas eu me levantava e ia para a janela pra tentar ver eles. eu vi umas luzes fortes no céu, umas estrelas que voam baixo. A estrela mais forte de todas, a primeira que aparece, em cima dos carros cheios de sereno da vizinhança, na frente da janela do quarto, antes de sair o sol, antes do cantar dos passarinhos, antes da luz azulada que vem rompendo a noite, ela ficava parada ali me observando, dizia que ia começar o dia. Muita falta de ar eu sinto dona estrela e o sabiá já começando seus assovios, eu sendo levado nos ombros do meu pai pro hospital, como um boneco, gordo de tantos casacos e cachecóis, fim da madrugada com o vento gelado batendo no rosto pela janela do carro. Tentando respirar. Pra que ir direto ao hospital se podemos passear nas ruas vazias e ver os vitrais da igreja central e as padarias de portas fechadas chaminés abertas expelido cheiro de pão?

4- Me perdia sempre no supermercado. A cada saída uma perdida. Uma coleção de bichos no formol. Um deles era uma larva gorda e branca, com o passar do tempo ela virou um pedaço de cocô. A geladeira ligando e desligando durante a madrugada inteira. Umas sementes que eu joguei na floreira viraram flores. Uma semente de abacate que eu plantei virou uma árvore que rapidamente já estava muito maior do que eu, apesar de eu ser bem mais velho que ela. Onde foram parar aqueles bichos recheados de isopor que minha mãe pendurava nas paredes do meu quarto?

5- as nuvens no inverno gaúcho passam gordas e pesadas de chuva nos fins de tarde depois da escola. me dava uma tristeza aquelas fins de tarde. Voltar pra casa escura, infestada com aquele cheiro de flor. Mãe, isso é florzinha de cemitério, não é pra ter em casa.

6- Eu queria chegar no outro dia e não ter sido trocado por alguém que não sou eu. Nas tempestades de raio pessoas são trocadas. Mesmo corpo conteúdo diferente. Eu devo ter sido trocado na tempestade, estava relampejando muito eu marquei de fazer um sinal no dia seguinte, na escola, para que o meu melhor amigo ficasse sabendo que eu continuava o mesmo. não dei um sinal algum, tão pouco ele. Ele. Ele deve ter sido trocado.

7- um charuto, de metal límpido com uma luz na ponta, parece um balão ou um dirigível, mas não. voava baixo demais, cortando o chumbo próximo do céu prenhe de chuva, na volta do super, eu vi sim, pela janela do carro dos meus pais.

8- meu quarto era pintado de azul escuro, simulando o fundo do mar. pedras de isopor pintadas passavam por pedras submarinas, cobertas de seres vivo multicoloridos: corais peixes e conchas. em um buraco vivia uma moréia negra. através de dança, algas cor de rosa, criavam o refúgio perfeito para ela, uma fenda no ventre da pedra. Havia também luzes de néon que desenhavam peixinhos na parede. (MEU DEUS EU BOTEI NEONS NA PAREDE DO ANDY/EDIE jurando que estava sendo influenciado pelo Dan Flavin. O QUANTO DE FANTASIA INFANTIL TEM NAS MINHAS PEÇAS?) Braços de manequins pintados de dourado serviam para pendurar minha mochila, boné ou o uniforme do colégio azul marinho com listras laranja, eu quero ir pra aula de escafandro. Não consigo respirar.

9- Percorrer lugares abandonados no sonho. Um colégio de muralhas de pedra vazio. Todo aquele espaço, ginásios corredores laboratórios museus banheiros teatro. As escadarias sótãos e porões. Equipamentos empoeirados, bichos empalhados bichos em vidros virando cocô com o tempo. a biblioteca com móveis de madeira escura e os janelões de vidro fosco sempre lacrados. homem e seus símbolos manual da auto-destrutividade humana. Atrás das cortinas em farrapos de veludo vermelhas moram fantasmas.

10- Ficar tardes inventando histórias em casa olhando as figuras já tão vistas da Enciclopédia da Luta Contra o Crime, eu pintei os olhos dos criminosos de vermelho. Desenhar monstros em papeizinhos, monstros da tv monstros dos livros monstros do espaço diabos caveiras e palhaços. Desenhar dinossauros e monstros e depois colar tudo nas paredes. A psicoterapeuta disse em segredo pros meus pais que eu era suicida. Eles me tiraram da terapia. Que ações de criança eu ainda faço? Minhas paredes ainda estão lotadas de monstros.

11- Itinerário de infância: imaginava a minha vida como um filme. No cartaz uma foto em destaque já que eu sou o principal. Os outros personagens que eu conhecia ao meu redor, menores, rostos em fotografias do tamanho da sua importância, a família, os amigos e o professor de educação física.

12- nunca gostei de heróis. os heróis são chatos e sempre ganham. Eu não ganho sempre. Queimei o rosto de um Comandos. Ele foi torturado e virou do mal.

13- Meus irmãos ganhavam uns presentes que eu adorava. A luva do Freddy Krugger. O boneco de borracha, monstrinho que mexe os olhos, o marrom, o mais perfeito.

14- No meu laboratório caseiro já assassinei muitas formigas com eletricidade. E aprendi que as formigas voltam após a morte. Formigas- zumbis são um inferno. O melhor mesmo é esmagá-las.

15- Fiz uma tatuagem no meu irmão com a ponta de uma faca incandescente

16- Apanhei uma boa surra por isso

17- A idéia era marcá-lo com um sinal que não desaparecesse nem quando ele ficasse forte como o Rambo. O Rambo é tão forte e tem tantos cortes pelo corpo...

18- Um outro irmão nasceu e morreu. Vi ele mortinho no corredor e falei pra minha mãe: as vezes vejo o Juliano.

19- Os cadáveres ficam naquelas casinhas do cemitério, eles não tem pele, homens de músculo. Meu irmão tá na casinha também, eles tem cheiro ruim. Homens de carne que é igual a carne que a gente come. Os coveiros ficam ali o dia todo passando perfume neles.

20- Tive que optar não ser um monstro.

21- Por vezes eu sou um monstro. Por vezes não.

22- Como é isso de se perceber homem e coisa? Carne e imaginação? Herói, não.

23- Brincar de sapo. Brincar de amor. Brincar de lembrar.

24- Ouvir músicas retrô e achar muito bonito, quando o sol bate de tarde no quarto da minha mãe em cima da cama eu gravo músicas do rádio, meu corpo menino menor ainda pois deitado na cama dos meus pais. Esparramado sobre o luminoso cobertor abóbora, orelhas amplificadas pelos fones um mickey-dj. fiz muitas fitas "muzicas de zuzeso". Retrô antes e retrô agora. Eu faço cds pros meus amigos. Faço cds pros ensaios. Minha mãe mandou o cobertor por sedex.

25- To me mijando. Aquela solidão que dá quando o último canal sai do ar e aparece o colorbar, são apenas três e meia da manhã e ainda vai demorar para amanhecer. Vai estourar o xixi e eu estou petrificado ouvindo o chiado da TV fora do ar.

26- Eu não tenho mais vontade de ir a aula.

27- Parece que tem um polvo enrolado no meu peito.

28- Quando eu fico com asma eu pareço um edifício com as janelas fechadas.

29- Filmes de terror. mãos com unhas de ferro são um fetiche bárbaro. um dos meus primeiros papéis importantes: um monstro que aparecia num quadro ameaçando a todos com o corpinho ossudo de adolescente, muita vergonha, raiva e unhas de punhal. Me disseram logo que eu não era um bom ator. o filho dele era um bom ator. minha primeira paixão foi um bom ator de treze anos com um papaizinho bem orgulhoso. ele virou um homem horroroso e eu continuo sendo apenas um ator.

30- Estas foram as coisas doces. Como enfiar as mãos numa poça de lama, brincar com água, com fogo, com ferro dando golpes de facão na árvore para vê-la chorando branco. das outras não ouso. nem em pensamento. Doce como ouvir aquele piado horrível que sai de lá que pássaro fantasma noturno. Os assovios começavam a vir muito próximos, o farfalhar de asas na janela, era o piante.

sexta-feira, outubro 05, 2007

Surpreender-se com um velho amigo

Nós estávamos brincando sem brincar, conectados com a matéria física da imaginação. corpos imaginantes, homens feitos de imaginação. Se pensar é esculpir como falava Beyus, o teatro pode ser uma grande escultura formada no abraço dos corpos imaginantes da platéia e dos performers.
Uma noite muito estrelada: saímos de madrugada para jogar. A noite não estava estrelada, nem era noite. Não interessa, pois fêz-se noite pois fechamos os olhos e logo umas luzinhas ligaram-se no espaço. Pisca-piscando. Um baile. Divertimentos noturnos, contar histórias, dançar imóvel, correr pelado, cantar com os sapos, um pic-nic de comidas de barro.
Nosso cotidiano banal contém o mundo e uma esfera poética insuspeita como a técnica dura também contém um território de mistério onde o que se é não interessa, basta ser. Um espetáculo de teatro pode ser justamente uma caminhada do cotidiano ao sonho, onde um não anula o outro. Razão emocionada, a lógica do delírio. O adulto não anula a criança ou o velho. A imaginação não anula o pragmastimo do cotidiano: é tudo vida. Talvez seja nesse paradoxo que possa nascer uma relação de arte.

sábado, setembro 29, 2007

Astronauta INSONE


Eu poderia segurar o tempo com uma rede? Ter vivido até aqui só pode ser uma forma de delírio. Delírio-criança: estar sentado e não alcançar os pés no chão. O corpo pequeno-leitoso- magro. Até onde eu me lembro? Objetivamente, tentando buscar a memória, ou melhor, trazendo as imagens até aqui. Engana-se quem disse que eu poderia me lembrar do meu corpo-feto, sonho intra-uterino. Se eu realmente me esforço consigo apenas chegar em camas flutuantes no cosmo. Engana-se quem disse que eu fui gerado de um espermatozóide que entrou num óvulo. Num ato orgânico de sexo dos meus pais. Não. Eu não estava lá. Eu estava navegando no espaço. Apareci no meu berço vindo diretamente de uma escuridão. Uma sensação tão linda, tão suave que achei que nascer fosse apenas acordar novamente na cama embarcação. Cama barco foguete cápsula casulo espacial. Isso pode ser considerado uma memória genuína: eu vim do espaço.
Antes do frenético desenvolvimento das minhas células, das dores nas pernas, das vergonhas repentinas como repentinamente nasciam os pêlos em lugares insuspeitos, dos tesões em brasa viva pelo melhor amigo. Antes de tudo isso.Eu pilotando minha cama em pleno espaço. Um casulo de cobertores, apenas meu rosto de fora, muito triste são as estrelas, são tantas, e estão todas tão longe uma das outras, e é tudo tão grande, só pensando em chego até elas, e mesmo assim , chego apenas a ver as luzinhas, desconheço se são bolas de gases incandescentes, estrelas que morrem estrelas que nascem buracos negros supernovas. as estrelas pra mim são luzinhas distantes que me observam silenciosas, como eu as observo, silencioso navegador do nada.
Então, antes de do meu corpo adolescente explodir do interior do meu corpo criança, me disseram que havia ali no espaço o deus. Me disseram que ele é a imagem e a semelhança do homem. Então se for assim o deus aqui é esse homem barbudo mas também tem o deus caramujo o deus das peles verdes e gosmentas dos homúnculos, o deus raio e o deus de guelras que nada nos abismos. Existem tantos deus quantos existem homens. E de madrugada, afundado nos cobertores ouvindo cada ruído da casa e da rua, todos dormindo e eu com os olhos abertos mesmo sem luz alguma para ser enxergada, na madrugada com o cosmo inteiro dançando na minha cabeça, eu esperava morrendo de medo o momento de ouvir o barulho do elevador. Todos dormindo. Como ele teria entrado no prédio se não tinha as chaves. Por que ele é deus. Por que ele não é desse planeta. Ele está subindo em direção a porta da minha casa. O silêncio perfeito das noites citadinas de cortinas e persianas fechadas. E a batida repetida na porta. Eu paralizado vou em direção ao barulho. Não pode ser mas é, olho por baixo da porta e nada. Ligo a luz do hall de entrada e agora ele sabe que eu estou aqui, não tem escapatória. Ele bate com mais força na porta e eu abro. É um velinho. Pede pra entrar. Senta-se na sala. Pede uma coca-cola. Eu teria um infarto se deus viesse me visitar na madrugada.
Mais ainda. A cama navegando por uns riachos, entrando num túnel, despencando. Eu queria segurar a fúria do tempo com uma rede. Amarrar o corpo para que dentro dele não saíssem mais corpos, para que eu não mudasse tanto, pra não ter que ver o feto morto a criança morta o adolescente morto o homem morto o velho morto e a ossada morta. Como segurar o tempo do corpo com uma rede, laçá-lo, restringi-lo? Não, ele escapa por entre os nós, pelos buracos o tempo cresce líquido, escorre pelos canos do corpo respira a vida das células. Dá e tira. E eu sempre tendo que acompanhar os batizados e funerais de cada corpo que me compõe no tempo. Sempre dando olá e já dizendo adeus.. Sempre angustiado com essa montanha–russa que é a vida.
Ou não. Eu não deixei sequer uma célula para trás. Se eu tivesse um zíper você poderia me abrir e ver um segundo eu mais jovem, e logo depois outro e mais outro até achar um núcleo feto pulsante, ou um núcleo sonho. Mais. Ao mesmo tempo que você abrisse o zíper iria se deparar com camadas que não seguem ordens cronológicas, de repente se assustaria me vendo com cem anos virado em pele e ossos pensantes, ou o rosto húmido de tanto amor compartilhado que ainda nem pressenti. Não sei.
Ou melhor eu sei. Não é nada disso. Nada de corpo ossos brotando do corpo criança. Do corpo ossos brota o corpo carbono brota o corpo atômico. Não. Eu nem saí da minha cama embarcação. E já fico com uma saudade profunda de coisas que nem vivi ainda, saudade das coisas que imaginei imagino e imaginarei. Eu sei que qualquer madrugada eu poderei estar navegando em águas rasas e que meu corpo homem queria ser corpo coisa: terra, nuvem, girassol, baleia, chamas, pedregulho, lamaçal, átomos dos átomos. Nesse momento eu nem precisarei fechar meus olhos: eu sou um astronauta e estarei num foguete rugindo em chamas rompendo a atmosfera. Voltando veloz pro delírio silencioso das estrelas.

sábado, setembro 15, 2007

Efeitos físicos não determinados.

Necessário dizer que é sempre bom conferir novos trabalhos de artistas que curtimos faz um tempão. No caso conheci Jay-Jay no apartamento da Margarida, uma colega, atriz portuguesa nos idos 2004 quando eu estava trabalhando lá no Estágio Internacional de ACtores. Ela botou "it hurt me so" do álbum "Whiskey" e me apaixonei pelo magrelo de voz de cro*ner na hora. Agora o cantor-compositor sueco trás um novo álbum que é belíssimo e tem um nome um pouco longo: "The Long Term Physical Effects Are Not Yet Known". Depois de entrar numa viagem em que flertou com o electro, inclusive criando uma persona com visual totalemnte body-corpse que debocha e provoca o mundo fetichisado da moda e do consumo do corpo em "ANTENNA" (super influência em termos de atitude e visual para minha encenação de ANDY/EDIE), ele volta as raizes do trip-hop. The Long Term um álbum soturno mas delicioso de ouvir. Retoma os temas da solidão, das despedidas, do coração quebrado. Batidinhas eletrônicas, instrumentos melódicos e melosos. Melancolia é a palavra que mais vai ser lida associada a Jay-Jay em uma breve procura pelo google. Uma melancolia boa, como tirar casca de ferida, relembrar de velhos amores, ver o mundo com o filtro de um pessimismo afetivo, que não se deixa destruir mas incorpora tmbm a dor, a suave tristesa e a perplexidade. Fora isso a voz continua um veludo. Boníssimo pra ouvir sozinho lembrando do seu cara. Bom pra ouvir e lembrar do amor. Para ter saudade. Para inventar um amor. Para ouvir vivendo um amor. Ae vai um videozinho da ótima "she doesent lives here anymore"

GRINDHOUSE!

O projeto do duo nerd Tarantino e Robert Rodriguez, GRINDHOUSE é super legal. Acabei de ver o primeiro , PLANET TERROR, dirigido por Rodriguez. O filme faz um mergulho na estética da sessão da tarde ou do SBT, filmes que víamos quando éramos crianças, edição tosca, roteiro absolutamente debochado e cheio de diálogos-situações mirabolantes e sanguinolentas. Planet Terror é sobre uma cidadezinha no interior dos EUA fronteira com o México que se vê as voltas com uma multidão de zumbis. O filme homenageia os gêneros trash e capricha na direção de arte cheia de catchup tripas voando e heroínas bizarras como a gogo dancer da perna de metralhadora e a médica das mãos quebradas.
Um charme a mais nesse projeto é que junto aos filmes são apresnetados trailes fake de outros filmes trash. O Planet terror começa com um filmezinho pelo qual fiquei viciado: MACHETE!
assistam ae pra relembrar aquela excitaçãozinha nerd furiosa igual a quando éramos adolescentes e assitimos pulp fiction em algum cinema de rua já extinto.

Yesterday He Was A Decent Man Living A Decent Life. Now He Is A Brutal Savage Who Must Slaughter To Stay Alive.
They just fucked with the wrong Mexican
A boa notícia é que Robert Rodriguez VAI FILMAR O MACHETE INTEIRO.
Aguardo ansisamente.

segunda-feira, setembro 03, 2007

Pensamentos digestivos & reducionistas de João de Ricardo =D


sobre uma possível tentativa de reler "for the love of god" de damien Hirst no Brasil

nacionalidade define suporte:

inglês - caveira -diamante

brasileiro - caveira de gesso - strass

nacionalidade define valor:

inglês - 100 milhões

brasileiro -50 reais

nacionalidade define espaço:

inglês - galeria

brasileiro -encruzilhada

Para tirar o recalque!

Sempre admirei o trabalho do Damien Hirst vide a referência a sua obra claramente expressa no subtítulo de Extinção, peça que encenei faz uns anos "a impossíbilidade física da morte na mente de alguém vivo". è aquela do tubarão no minimalista formol. O cara é foda no conceito, foda na execução e foda no marketing pessoal. É impossivel não pensar na filiação entre o papa Warhol e o filhote Hirst. Ambos foram abençoados pela esperteza e pelo toque de midas. Hirst exacerba esse toque de midas em sua obra "for the love of god" um crânio humando totalemnte cravejado de diamantes. A peça foi vendida recente mente pela pechincha de 100 milhões de dólares. Sim. Podemos pensar no fetichismo do objeto de arte levado as últimas consequências nessa obra irônica de Hirst. Aliás quem sai ganhando é ele. A obra custou só de material ehhehe 15 milhões de dólares. Isso é dinheiro que eu nem tenho condições de avaliar tamanho número de zeros.
O engraçado e esse sentimentinho de inferioridade que dá quando penso que ainda não ganhei 1000 reais por mês com meu trabalho de encenador e arte educador.
Não é?
Então eu fiz um videozinho para tirar o meu recalque
ai está
a anatomia da boneca parte dois
enjoy


Dia 17 de setembro estaremos dando carão GLACIAL no POA EM CENA!

sábado, setembro 01, 2007

Vídeo institucional do GROTE PERPLEXIDADE

feito pelo Papai
=D

;) uma piadinha pra acalmar os ânimos


Pensamento do dia:

Gordon Craig está chorando, o supermarionete virou supermanequim

João de Ricardo

(auhauhaauh)